Gilmore Girls encerrando sexta temporada

Mais uma temporada do seriado “Gilmore Girls”, da Warner Channel, vai chegando ao fim. A sexta. Para a criação de Amy Sherman-Palladino, que estreou na TV americana em 2000, estrelada por Lauren Graham e Alexis Bledel (foto) nos papéis centrais de mãe e filha, o sucesso sempre bateu à porta.

 

            Nas videolocadoras brasileiras, é possível alugar a caixa da primeira temporada, o que nos localiza como tudo começou, desde o divertido parto de Rory (Alexis), quando sua mãe, a jovem Lorelai (Lauren) tem verdadeiros chiliques de querer socar a enfermeira.

 

            As Gilmore Girls do título são as divertidas Lorelai e Rory, mãe e filha morenas de olhos extremamente azuis da tradicional família Gilmore, de Hartford, Connecticut, que é formada inicialmente pelos não menos divertidos avós Richard (Edward Herrmann) e Emily (Kelly Bishop). Quando Lorelai fica grávida e sai de casa para ter sua filha e criá-la longe dos avós, torna-se a mãe solteira mais interessante da pequena e insossa cidadezinha de Stars Hollow, onde nada parece acontecer. Lorelai não está mais com o namorado Christopher, pai de Rory, e se torna gerente de uma pousada.

 

Os demais personagens são tão interessantes e divertidos: a maluca porém inteligentíssima Paris Geller (Lisa Weil, anteriormente chamada para o papel de Rory), o dono da lanchonete Luke (Scott Patterson) e a coreana Lane (Keiko Agena), a melhor amiga de Rory. As histórias seguem as aventuras e desventuras das duas personagens centrais, num misto de drama e comédia, às vezes na mesma cena. O seriado é uma simpatia só.

 

            Ao final de mais uma temporada, Lorelai está se decidindo pela separação do longo namoro (incluindo noivado) com Luke, após muitos atropelos e pequenas decepções que foram se acumulando. A filha Rory, muitas vezes combativa, segura de si e não menos inteligente que a mãe, toma as rédeas do seu relacionamento com o filhote milionário Logan Huntzberger (Matt Czuchry). A coisas vão tomando rumo.

 

            Divertido é acompanhar episódios das demais temporadas do seriado, de forma aleatória, quando vemos Rory ainda adolescente, toda tímida e insegura, e sua mãe que a ajuda nas pequenas coisas, como meramente falar ao telefone pedindo informações sobre cursos universitários. Ao final da sexta temporada, Rory é uma jovem adulta, tendo passado por suas experiências sexuais e profissionais, e começado a determinar exatamente o que ela quer.

Lorelai, por sua vez, vai se mostrando insegura em seus relacionamentos, tentando desesperadamente dar um sentido à sua vida. Ela sabe que a filha um dia vai casar e ter sua própria vida, uma vez que já está morando com o namorado. Mas o que ela menos quer é se tornar uma quatrocentona cheio de etiquetas feito seus pais.

 

            “Gilmore Girls” tem esse elemento – é diversão para toda a família, no melhor estilo dos “Family Entertainment” da Warner, com texto rápido, incisivo, divertido, tecendo inúmeras citações ou a cinema, literatura, televisão ou a notícias que atingem o mundo. Afinal, numa cidadela como Stars Hollow onde aparentemente nada acontece, ter um cão chamado Paul Anka ou personagens que falam tanto de outros seriados de TV ou de Hillary Clinton, o público telespectador realmente sai respirando aliviado, ao final dos quatro blocos de cada episódio.

 

            Detalhes: a canção de abertura, “Where You Lead”, foi composta e é interpretada por ninguém menos que Carole King, a mesma autora da famosa “You’ve Got a Friend”. Junto de Carole, na canção está ninguém menos que a filha dela, Louis Goffin, pois há duas vozes – mãe e filha – tal como a idéia básica de “Gilmore Girls”. Você também pode encontrar as duas atrizes principais em dois filmes recentes, desta vez separadas – Alexis Bledel em “Sin City” e Lauren Graham em “Sweet November”, apenas na primeira cena, na cama com Keanu Reeves.

 

Escreveu Ruy Jobim Neto

CINEmundi é um blog-coletânea dos artigos de cinema escritos por Ruy Jobim Neto originalmente para o Portal SulMix, de Porto Alegre. Para acessar mais informações sobre o site e o colunista:

Portal SulMix:  www.sulmix.com.br

Ruy Jobim Neto: http://ruyjobimneto.zip.net  e  http://tirasdojarbas.zip.net

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Fotos e Legendas

Audrey Hepburn

John Ford

Natalie Wood, como Debbie em "Rastros de Ódio"/ The Searchers (1956), dir.: John Ford

Fotos e Legendas

Blake Edwards

"A História de Elza" (Born Free)

"Muito Além do Jardim" (na foto: Peter Sellers)

"Moça com o Brinco de Pérolas" (na foto, Colin Firth como Vermeer e Scarlett Johansson como Griet)

"Butch Cassidy e Sundance Kid" (na foto: Paul Newman, Katharine Ross e Robert Redford)

Lucy Liu

Para Ouvir a Música de Gabriel Yared

 

 

Em meados de 2003, Gabriel Yared esteve no Brasil e deu uma palestra regada a piano de cauda e projeções de DVD numa sala da Aliança Francesa, em São Paulo. Na ocasião, também estavam na platéia o crítico de Cinema Rubens Ewald Filho e a cantora Maria Rita, filha de Elis, bem antes da fama. Falou de três filmes para os quais compôs trilha: “O Paciente Inglês” (foto), “O Talentoso Mr. Ripley” e “Betty Blue”, mas já estava anunciando o próximo trabalho com o diretor Anthony Minghella: “Cold Mountain”.

 

            O compositor e pianista veio ao Brasil a propósito da divulgação de seu trabalho musical, de seu site e aproveitou também o evento para contar sua história e como chegou ao Cinema para realizar a trilha de muitos filmes famosos e premiados. Tendo nascido em Beirute, no Líbano, era de se esperar que Gabriel Yared tivesse como uma de suas línguas pátrias o francês, daí o fato de morar atualmente em Paris. Mas Yared também fala em inglês e em português.

 

            Simpático e falante, Yared foi logo contando que sabe falar em português porque morou no Brasil durante um ano e meio, após chegar aqui, no início dos anos 70, para fazer arranjos no Festival Internacional da Canção. Amou a nossa música e por aqui ficou, aprendendo a língua de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e conhecendo todo mundo, de Carlos Lyra a Roberto Menescal, de Elis a Ivan Lins. Ficou praticamente um brasileiro.

 

            Sábia foi sua decisão, aos 20 anos de idade, de decidir parar com o Curso de Direito para ingressar de cabeça no mundo da música, como compositor. Sua formação musical era o jazz e a música erudita. Mesmo sendo autodidata, estudou na Ecole Normale de Musique, em Paris,  com Henri Dutilleux e Maurice Ohana, e foi trabalhar como compositor, produtor e orquestrador para cantores como Charles Aznavour e Mireille Matheiu.

 

            Sua estréia no cinema se deu com Jean-Luc Godard, em 1980, no filme "Sauve Qui Peut la Vie", para o qual compôs a trilha. Em seguida, começou a trabalhar para uma lista numerosa de filmes e grandes diretores como Jean-Jacques Beneix (“Betty Blue”), Robert Altman, Jean-Jacques Annaud, entre outros. Recebeu sua estatueta de Oscar com a trilha de “O Paciente Inglês” e foi indicado para outros dois prêmios da Academia em “O Talentoso Mr. Ripley” e “Cold Mountain”. Coincidentemente, esses três filmes foram dirigidos por Anthony Minghella. Yared é o fundador e diretor de um centro de pesquisa e veiculação de música folclórica em Paris, a Pléiade Academy, que inclusive proporciona suporte a jovens compositores talentosos na produção e promoção de seus trabalhos. O compositor também compôs ballets para as companhias de Carolyn Carlson e Roland Petit.

 

            Duas rápidas histórias: para a confecção de “O Paciente Inglês”, o diretor Anthony Minghella disse a ele que teria oito meses para compor a trilha sonora, e que nesta trilha deveriam conter três coisas – algo de Bach, algo de Haydn e uma específica canção do grupo folclórico húngaro Muzsikás, “Szerelem, Szerelem” (Amor, Amor), que abre o filme, e que tem no vocal a cantora Márta Sebestyén. O tema incidental que Yared compôs para o affair do conde Almasy (Ralph Fiennes) e Katharine (Kristin Scott-Thomas) é extremamente tocante.

 

            Outra história refere-se a “Betty Blue”, de Jean-Jacques Beneix. Há uma cena, no filme, em que o casal (os atores Beatrice Dalle e Jean-Hughes Anglade) tocam piano. Quando convidados à casa de Yared, para conversarem sosbre a música, o compositor verificou que Beatrice nunca havia tocado piano na vida e que Anglade, por sua vez, só tinha aprendido umas notas de Bach. Pois foi exatamente isso que Yared usou no filme, na cena com dois pianos de cauda, em que os atores tocam juntos. O efeito é muito bonito.

"Roma, Judá... Roma"

 

 

“Ben-Hur” é, sem dúvida alguma, um dos maiores filmes de todos os tempos, e nesta categoria, poderíamos incluir sem medo obras como “Lawrence da Arábia”, “A Ponte do Rio Kwai”, “Os Dez Mandamentos”, “El Cid” e, claro, “...E O Vento Levou”. Acontece que “Ben-Hur” está sendo lançado em DVD, essa é a grande novidade. Não se pode esquecer que até a produção de “Titanic”, “Ben-Hur” foi, durante quatro décadas, o maior recordista de Oscars da Academia, em todos os tempos: 11 estatuetas (Melhor Filme, Diretor – para William Wyler -, Ator – para Charlton Heston, Ator Coadjuvante – para Hugh Griffith, entre outros).

 

            A superprodução de William Wyler, rodada em 1959, tem todos os ingredientes para emocionar, e é um filme que deveria voltar às grandes telas dos cinemas, num revival. Tudo é merecido, de tão bom que é, de tão completo e perfeito que é. “Ben-Hur” funciona como um relógio. Baseado no livro homônimo do General Lewis Wallace (1827-1905) – que só escreveu dois livros na vida -, a produção da Metro sob a direção precisa de Wyler começa a ser narrada a partir do ano zero da Era Cristã. “Ben-Hur”, o livro, teve duas versões cinematográficas anteriores. Judá Ben-Hur (Charlton Heston) tem a mesma idade de Cristo. Roma, a grande Roma dos Césares, domina todo o mundo conhecido, só não chegou às raias da Índia, o mesmíssimo limite do império de Alexandre, o Grande. Pois bem, a trama se fixa na Judéia, onde os reis magos, seguidos pela Estrela de Belém, são recebidos na manjedoura onde nasce Jesus. Trinta anos mais tarde, o Império Romano tem problemas com a Judéia. Há cheiro de conspiração no ar, segundo dizem os romanos. Para liderar os militares na região, é mandado Messala (Stephen Boyd), romano criado entre os judeus. Messala é amigo de infância de um dos homens mais ricos de Jerusalém – exatamente Judá Ben-Hur.

 

            As convicções de Messala sobre Roma ficam extremamente firmes depois de viver na grande cidade. “Roma, Judá... Roma” – é a frase que diz ao amigo judeu, mostrando que essas conspirações (na realidade, as histórias sobre um rabi chamado Jesus) deverão ser debeladas pra sempre. E para sempre o poder de Roma reinará. Quando Messala percebe que Ben-Hur não vai se juntar a Roma contra o seu próprio povo, há uma diferença clara entre os até então amigos. Há dois lados opostos muito bem definidos.

 

            Uma triste e insólita situação leva a família de Ben-Hur (a mãe e a irmã) a serem presas nas masmorras de Jerusalém, sob ordem pessoal de Messala, e Judá é levado para as galés, como remador escravizado. Muitas peripécias depois, e Judá Ben-Hur, após salvar a vida de um senador romano (Jack Hawkins), vai para Roma. Torna-se um famoso e celebrado auriga, ou seja, um “piloto” de bigas de corrida. E assim, o novo herói “filho de Roma” volta à Judéia para se vingar de Messala e salvar sua família.

 

            Emoção pura, o filme conta com a direção precisa, milimétrica, classuda, de William Wyler. No filme, a interpretação do elenco é um primor. O roteiro inclusive tem a colaboração (não creditada) de ninguém menos que Gore Vidal. A belíssima atriz palestina Haya Harareet, em seu terceiro filme, embelezava a tela e os sonhos românticos do herói Ben-Hur. É desse filme a famosa cena da corrida de bigas, é o grande momento da trama, quando os valores de Ben-Hur como grande auriga são confrontados aos de Messala. Nos nove giros com as bigas em torno da arena, mostra-se com todo o esplendor a criatividade dos desenhistas de produção e dos marceneiros de Cinecittà, em Roma, onde a cena foi realizada. A fotografia, em widescreen, de Robert Surtees, trabalha em coalizão perfeita, em sintonia fina com a música do grande compositor húngaro Miklós Rosza.  

 

Moça com o Brinco de Pérolas

 

 

            Outra boa indicação de filme é “Moça com o Brinco de Pérolas(Girl with a Pearl Earring), uma pérola do cinema meio escondida na prateleira da memória recente do público espectador.

 

                O filme, dirigido por Peter Webber em 2003, é uma co-produção anglo-holandesa filmado com maestria pelo diretor de fotografia português Eduardo Serra, um achado assombroso, principalmente quando ele reproduz, na tela do cinema, a luz do mestre holandês pintor, do século XVII, Johannes Vermeer.

 

                “Moça com o Brinco de Pérolas” é puro Vermeer. A história, adaptada do romance homônimo de Tracy Chevalier, é passada na cidade de Delft, a sul de Amsterdam, um tanto próxima de Haia. Delft é a cidade onde Vermeer possuía um atelier, e da qual somente saiu uma única vez na vida, para ir a Haia, para negociar seus quadros.

 

                Vermeer é interpretado pelo inglês Colin Firth (de “Bridget Jones”, “O Paciente Inglês” e “Simplesmente Amor”), tem uma família cristã num mundo recentemente protestante, numa Holanda onde o grande pecado é a falência econômico-financeira.

 

                A belíssima e pobre Griet – a moça do título - é interpretada pela novaiorquina Scarlett Johannson (de ascendência holandesa), e que vai trabalhar como criada na casa do mestre Vermeer, causando, a princípio, o ciúme da mulher do pintor. Vermeer e Griet ficam amigos, há uma tensão sexual no ar. Daí para o quadro ser pintado é uma interessante viagem cinematográfica por quadros maravilhosos do mestre holandês, embalada por uma trilha sonora eficiente de Alexandre Desplat. O filme ganhou Oscars de melhor direção de arte e figurino, em 2004, e todos foram para prateleiras holandesas, com certeza.

Laura, a voz de uma estrela

 

 

            Às vezes as pessoas pedem uma ou outra indicação de um bom filme para assistir num fim-de-semana. Aqui vai a dica de “Laura – A Voz de Uma Estrela” (Little Voice), dirigido por Mark Herman  em  1998 . A graça desse filme reside na figura -  ao mesmo tempo meiga, frágil e patética – da personagem Laura, ou L.V. (a “Little Voice” do título original), interpretada magistralmente pela atriz britânica Jane Horrocks.

 

                A peculiaridade do filme é a própria Horrocks. A atriz, formada pelo Old Vic Theatre, de Londres, tem registro vocal exuberante: ela pode imitar vozes de cantoras, desde Judy Garland a Shirley Bassey, até atrizes como Marilyn Monroe.

 

                O filme deu o Oscar a Michael Caine. O elenco coadjuvante, estelar, é composto de Brenda Blethyn, Ewan McGregor (que todos conheceram como o Obi-Wan Kenobi da recente trilogia “Star Wars”) e Jim Broadbent (de “Moulin Rouge”), além do próprio Caine.

 

                A história se passa numa pequena cidade litorânea inglesa, e gira em torno de L.V. (Horrocks), uma figura fragilizada pela morte do pai querido, que lhe deixou discos antigos das três artistas que ele mais curtia – exatamente Marilyn, Garland e Bassey – e a mãe dela, uma mulher solitária e terrível, que oprime a filha. L.V. (como é chamada pela mãe), que quase não fala mas, quando ouve os discos antigos do pai, solta a voz.

 

                E é quando o empresário artístico, um beberrão e malandro (Caine) descobre a figura, começa todo um movimento para que a pequena L.V. se torne uma estrela. No entanto, um rapaz também solitário, trabalhador da empresa telefônica e treinador de pombos-correio (Ewan McGregor) conhece a garota e por ela se apaixona.

 

Dois detalhes sobre o filme: a personagem Laura, de Horrocks, lembra diretamente a personagem homônima da peça “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams, alguém que vivia solitária, como um pombo engaiolado, no meio de discos velhos que o pai deixou pra ela. O outro detalhe é que o filme foi adaptado de uma peça de teatro de Jim Cartwright, chamada “The Rise and Fall of Little Voice”, escrita exatamente para o talento vocal e cênico da pequena Jane Horrocks. Vale a pena ver de novo.

Uma Londres sem culpa e plena de vida

 

            A propósito dos acontecimentos de 7 de julho (os atentados terroristas) em Londres, vamos pensar leve e indicar uma série de filmes britânicos, com aquele delicioso sotaque, aquela verve própria dos londrinos. Claro, a maioria desses filmes de nossa coluna de hoje são produções da talentosa Working Title. E têm Londres como pano de fundo.

 

                Vamos começar com um bem londrino, mesmo: “Um Lugar Chamado Notting Hill” (Notting Hill), com Hugh Grant e Julia Roberts (foto). Ele faz um livreiro no charmoso bairro de Notting Hill, na “zona oeste” de Londres. Ela interpreta uma atriz americana, de Hollywood, extremamente famosa, lançando um filme na capital britânica. Eles se apaixonam nesta comédia romântica muito divertida, cheia de atropelos, mas com uma simpatia enorme.

 

                Só pra lembrar: Notting Hill é o mesmo bairro que tem a famosa feira de Portobello Road (que aparece no filme em algumas cenas) e o Carnaval de rua, um feriado que acontece sempre na última segunda-feira de agosto, todo ano. O filme tem cenas em Hyde Park, mostra os tetos das casas de subúrbio londrino, tem uma cena de Hugh Grant saindo do famoso Ritz Hotel, enfim, tem Londres para todos os gostos.

 

                Em “O Diário de Bridget Jones”, é a americana Renée Zellweger quem brilha, também ao lado de Hugh Grant. Há cenas que mostram tanto Londres quanto cidades mais próximas, por onde a personagem-repórter-solteirona-de-plantão Bridget Jones perambula. No segundo filme da série, também com o casal Zellweger e Grant (formando sempre o trio com Colin Firth), há mais Londres ainda. Há uma cena composta em CGI (computação gráfica) em que a câmera sai do quarto de Bridget, atravessa a cidade inteirinha até chegar a Notting Hill, onde está Colin Firth.

 

 

                Mas é em “Simplesmente Amor” (Love Actually) que a cidade se mostra como cartão-postal. Do Aeroporto Internacional de Heathrow, onde o filme começa (e termina), a câmera percorre o rio Tâmisa, mostra de longe a Catedral de Saint Paul, dá uma palhinha de Trafalgar Square e Piccadily Circus, à noite, tudo brindado pelas luzes natalinas.

 

                Que filme é esse? É aquele famoso filme em que o nosso Rodrigo Santoro tem personagem com fala e tudo (ufa!), onde ele contracena com Laura Linney, Emma Thompson e Alan Rickman. Além desse pessoal, o espectador é brindado pelas presenças de Hugh Grant (ele, de novo!), Colin Firth (uma vez mais!), Keira Knightley – que rodou “Pride & Prejudice”, de Jane Austen, para a Working Title -, além do “Mr. Bean” Rowan Atkinson, o irlandês Liam Neeson, a portuguesa Lúcia Moniz. Enfim, um elenco simpaticíssimo num filme cheio de música e pleno de sentimentos.

 

                Em “Simplesmente Amor” há várias histórias simultâneas – o Primeiro Ministro se apaixona pela copeira da Downing Street, número 10 (a moradia oficial do poder britânico), um padrasto pretende ajudar o filho de sua falecida esposa a se aproximar da garotinha por quem o menino está apaixonado, um cantor decadente lança uma música natalina nas paradas de sucesso, uma esposa se vê às voltas com um marido não tão fiel assim, um escritor inglês se apaixona por uma portuguesa, e por aí vai.

 

                Saindo um pouco das produções da Working Title, podemos relembrar aqui outros filmes rodado na Inglaterra, e que tem também Londres como pano de fundo. Das aventuras de James Bond (cujas primeiras cenas sempre privilegiam a capital inglesa), a um drama romântico com a linda Gwyneth Paltrow, “De Caso com o Acaso”, cuja cena chave acontece exatamente no “underground”, o metrô londrino.

A nova fantasia de mestre Miyazaki

  

 

 Espantoso. É só o que podemos falar do “master filmmaker” (cineasta mestre, como é chamado pelos distribuidores) Hayao Miyazaki, o autor de “O Castelo Animado”. Se ele exibe o rito de passagem de menina para adolescente em “A Viagem de Chihiro”, através da história de uma garotinha, Chihiro, que se perde dos pais e acaba entrando num mundo fantasioso, é em “O Castelo Animado” (Howl's Moving Castle), de 2004, que ele mostra a passagem seguinte – a da jovem para o mundo adulto. E com que categoria.

 

                Miyazaki se supera a cada filme, e isso por si só mostra a pujança do desenho animado japonês em suas vertentes as mais diversas, diante da animação ocidental. Basta lembrarmos de “Akira”, de Katsuhiro Otomo e de como esse filme causou comoção no mundo do cinema (e mesmo dos quadrinhos). Só um detalhe: vem vindo por aí outro filme do autor de “Akira”, e que é tido como o filme de animação japonês mais caro da História, chama-se “Steamboy”. Miyazaki, por sua vez, é outra estrada.

 

                Tendo suas obras-primas (“Meu Amigo Totoro”, “A Princesa Mononoke” e “A Viagem de Chihiro”, entre outros) ganhado os corações e as mentes de todos aqueles que amam a animação, Miyazaki tem contribuído com a graça do próprio meio, com a fantasia, a poesia e a humanidade presente por trás de cada pequena história dos povos. E aqui, mais uma vez à frente do Studio Ghibli (e com distribuição mundial dos Estúdios Disney), o cineasta põe nas telas o delicado e romântico roteiro de Diana Wynne Jones.

 

                Sophie é a personagem central de “O Castelo Animado”. Ele, o castelo, já aparece desde as primeiras cenas, que por sua vez exibem cenários deslumbrantes, compondo um colossal desenho de produção. A menina trabalha tranquilamente numa tranqüila cidade como chapeleira, uma cuidadosa reformadora de chapeuzinhos delicados, algo tão pueril que nem de longe lembra o que irá lhe acontecer em breve.

 

                Quando ela se defronta com Howl (cuja voz em inglês é feita pelo ator Christian Bale, o atual Batman) e a fantasia começa a aparecer em sua vida – a primeira cena do vôo sobre a cidade é um primor -, a menina se vê perseguida por uma magia, um encantamento de uma bruxa. Sophie então é transformada, num passe de mágica, numa mulher de 90 anos de idade. Ela resolve então se refugiar dentro do misterioso castelo que ronda a cidade.

 

                Há uma guerra no ar, as cidades virarão pó em seguida. O castelo parece o melhor lugar do mundo para ficar. E é neste lugar que a fantasia vai às últimas conseqüências, transformando o longa-metragem numa sucessão interminável de extraordinários cenários (uma direção de arte impecável ) e a música belíssima de Joe Hisaishi. Os personagens que aparecem em seguida são os mais insólitos e adoráveis, ao mesmo tempo – uma bruxa, um cachorro velho, um fogo fátuo (com a voz de Billy Cristal, em inglês), um espantalho, um menino gnomo e finalmente Howl, o dono do castelo.

 

                O filme é um rito de passagem, como dissemos, mas também uma história de amor. A paixão de Sophie e Howl não pode se concretizar: quando é noite, ele é uma enorme ave com rosto de gente (como as harpias gregas, da lenda do Velo de Ouro), Sophie volta à forma normal de garota, e de dia ele é um jovem e belo rapaz por quem ela se apaixonou, mas ela está sob a forma encantada, de mulher de 90 anos. Ou seja, a força do amor combate as maiores adversidades - eis a mensagem por trás desse belo desenho animado.

A História Levada a Cabo

 

(Ruy Jobim Neto, articulista)

 

 

 

O ano é 1972. O presidente, Richard Nixon. O país, obviamente, os Estados Unidos da América. “Todos os Homens do Presidente”, longa-metragem do falecido cineasta Alan J. Pakula é, em todos os sentidos, o melhor relato cinematográfico do caso Watergate, a investigação que levou o presidente Nixon à renúncia. Essa é a nossa indicação desta semana, exatamente a semana em que se abre a CPI dos Correios.

 

                Se aqui ministros poderosos caem, deputados são indiciados e investigados, no filme há a invasão do prédio-sede do Partido Democrata por membros do partido republicano – o mesmo de Nixon -, exatamente o Edifício Watergate, que dá nome ao caso.

 

                O pivô desta história a gente conheceu há duas semanas e meia atrás: Mark Felt, o nonagenário segundo nome do FBI da época, veio à tona. Foi ele que contou tim-tim por tim-tim das ligações perigosas do insólito caso de invasão do prédio com o cerne da Casa Branca, mais precisamente, o Salão Oval.

 

                Os protagonistas? Dois repórteres (hoje célebres) do jornal “The Washington Post”, Carl Bernstein (interpretado por Dustin Hoffman) e Bob Woodward (Robert Redford), os autores do livro homônimo de onde vem o título do filme.

 

                Sob a gerência do também legendário editor do jornal, Ben Bradlee (Jason Robards), o caso foi ganhando força, a cada informação que a intrépida dupla de repórteres ia colecionando, e assim, jogando para o público.

 

                Uma a uma das peças do xadrez ia caindo, sendo todos devidamente indiciados, interrogados. No melhor estilo CPI. O personagem-pivô foi batizado, à época, de “Garganta Profunda”, lembrando o clássico filme pornô estrelado por Linda Lovelace.

 

                Garganta Profunda (Deep Throat) passava informações, dicas, pistas preciosas somente ao repórter Bob Woodward. Ambos se encontravam num determinado estacionamento da capital americana. No filme, o informante é interpretado, na sombra, por Hal Holbrook.

 

                Rodado como thriller político, “Todos os Homens do Presidente” balanceia cenas escuras com outras muito claras. As mais claras se localizam ou na redação do jornal, ou nas ruas de Washington, de dia. As mais escuras trazem à tona exatamente os momentos em que “a panela era destampada”, para usar um termo atual de nossas CPIs.

 

                Com um elenco que ainda traz Martin Balsam, Ned Beatty, Jack Warden e F. Murray Abraham (este muito, mas muito tempo antes de ganhar o seu Oscar por “Amadeus”), “Todos os Homens do Presidente” é um filme sério, mas empolgante. O ideal é prestar bem a atenção no que se diz, juntar as peças do xadrez, seguir as pistas junto com os repórteres. O filme é uma aula de História e de jornalismo, do melhor. Uma história real, da época em que o telex ainda fazia diferença. Ele, que era o avô da internet.

 

Desmundo

(Ruy Jobim Neto, articulista)

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

            Outra indicação de filme brasileiro: “Desmundo”, o mundo revirado de Alain Fresnot, que faz do cinema uma experiência extraordinária.

 

                Com um elenco maravilhoso, encabeçado por Simone Spoladore, Osmar Prado, Caco Ciocler, Beatriz Segall, Cacá Rosset e Berta Zemel, “Desmundo” é uma recriação do Brasil do século XVI. Em 1570, um grupo de garotas vindas de um convento português chega ao Brasil para se casar com portugueses aqui residentes, uma vez que estes estão se mesclando aos nativos ameríndios.

 

                Se Pindorama daquela época estava falando basicamente o tupi, essas meninas (entre elas Oribela, interpretada por Spoladore, que está ótima) vêm trazer novo sangue à colônia. Osmar Prado escolhe Oribela como sua esposa. A vida dura que a moça vai encontrar nos rincões da colônia vai escancarar quando ela conhece um marrano (Ciocler), e por ele se apaixona.

 

                A história do triângulo amoroso em “Desmundo”, filmada em widescreen belíssimo, ganha uma direção de arte primorosa. O filme foi rodado numa cidade cenográfica construída perto de Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo. Os personagens, por sua vez, falam em português arcaico. O filme é dublado em português moderno.

 

                Com roteiro inspirado em romance de Ana Miranda, o diretor Alain Fresnot (de “Ed Mort” e “Lua Cheia”) extrai o máximo de sua equipe e seu elenco. “Desmundo” é, sem dúvida, uma bela obra cinematográfica.

 

Eterna Audrey, eternos filmes

(parte 1) 

(Ruy Jobim Neto, articulista)

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

Audrey Hepburn nasceu princesa. Em todos os filmes de que participou, ela sempre foi a princesa do público, impossível lembrar dela de outro modo. Fosse o personagem que ela interpretasse, a atriz sempre parecia docemente intocável, de uma beleza sofisticada, fazendo dos vestidos e dos taillers desenhados por Hubert de Givenchy uma extensão perfeita de suas formas e de sua graça.

 

Praticamente um cisne. Audrey teve uma infância difícil, sendo testemunha do sofrimento infligido pela II Guerra Mundial, na Europa. A atriz nasceu em Bruxelas, na Bélgica, a 4 de maio de 1929, batizada sob o nome de Audrey Kathleen Ruston, filha de Joseph Victor Anthony Ruston, um banqueiro inglês muito bem sucedido e de Ella Van Heemstra, uma baronesa holandesa, ou seja, tinha mesmo o sangue azul correndo pelas veias.

 

Depois do divórcio dos pais, seguiu com a mãe para Londres, onde foi matriculada numa escola particular para moças. Mais tarde, ao se mudar de volta aos Países Baixos, com sua mãe, continuou a estudar em escolas particulares. Durante as férias em Arnhem, Holanda, o exército de Hitler toma a cidade.

 

Foram os anos duros da ocupação nazista que levaram a já adolescente Audrey a sofrer de depressão e de má nutrição. Chegou a se alimentar de bulbos de tulipa holandesa e mesmo a cozinhar grama dentro de pães, naqueles dias. Seu nome foi trocado para “Ella”, neste período, para esconder o nome britânico “Audrey”, por motivo de segurança – a Alemanha de Hitler era feroz inimiga da Inglaterra. Após a Europa ser libertada, Audrey retorna a Londres para estudar ballet, e daí para a carreira de modelo foi um passo. Tinha 1,70 m de altura.

 

Como modelo, era absolutamente graciosa. Falava fluentemente em inglês, espanhol, francês, holandês, italiano e flamengo. Tinha encontrado o nicho em sua vida - o mundo da moda -, até que os produtores cinematográficos começassem a telefonar. O nome Hepburn foi adicionado mais tarde, por causa de documentos perdidos pelo pai de Audrey, durante a ocupação nazista na Holanda. Os ancestrais de seu pai eram Hepburn, daí seu nome ter mudado para Audrey Kathleen Hepburn-Ruston, ou simplesmente Audrey Hepburn.

 

O ano de 1948 foi a estréia de Audrey no cinema europeu, em “Nederland in 7 lessen”, sendo que três anos depois ela já ganhava um papel com falas, em “Young Wive´s Tale”, no papel de Eve Lester. Mesmo com um papel pequeno, Audrey se muda para a América, para tentar a sorte no cinema. Foi, portanto, em 1953, sob a direção de William Wyler (o diretor de “Ben-Hur”), no papel da Princesa Ann, que a atriz receberia seu Oscar de Melhor Atriz por “A Princesa e o Plebeu” (Roman Holiday), inteiramente filmado nas ruas de Roma e em Cinecittà, tendo a seu lado Gregory Peck e Eddie Albert.

 

A graça de “A Princesa e o Plebeu” reside exatamente na comédia romântica, na fábula tão bem urdida por Wyler que, sem se despojar do seu jeitão acadêmico de narrar, conta a história de como a travessa Princesa Ann se perde em Roma. Claro que o artifício do filme é colocar a princesa sob a tutela do jornalista americano Joe Bradley (Gregory Peck), um correspondente na Itália. Estamos diante de uma perfeita comédia de erros – ela finge ser uma garota perdida em Roma, e Peck não demonstra estar fazendo uma reportagem. O amigo fotógrafo, interpretado por Eddie Albert, é quem faz as provas para o furo de reportagem. Claro que a Princesa é procurada em toda Roma pelas autoridades de seu reino. E obviamente a princesa e o repórter acabam se apaixonando.

 

 

A era vitoriana, fotograma a fotograma

(Ruy Jobim Neto, articulista)

 

 

 

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

 

Houve um momento muito interessante da cultura ocidental que o cinema soube, como nenhuma outra arte, retratar. Durante os anos de Vitória I, rainha da Inglaterra (com longo reinado entre 1837 e 1901), o mundo se curvou à coroa britânica. Embora a moda e a pujança francesa tenha se mantido fortemente até o final da I Guerra Mundial (1914-1918), foi o período encantador e extremamente sofisticado (para não dizer puritano e preconceituoso) da era vitoriana que engendrou obras de arte, histórias fantásticas, romances eternizados, material farto para filmes de todos os gêneros.

 

Vamos por gênero, um de cada, apenas para citar filmes de renome a pontos do leitor internauta ter uma indicação em sua próxima visita às videolocadoras – musical, terror, crime, drama e finalmente o “disaster movie”. Há de tudo um pouco.

 

MUSICAL – Imbatível filme de 1964 dirigido por George Cukor é “My Fair Lady” (foto acima), tido como um dos maiores musicais do cinema de todos os tempos. Nele, está a história vertida da peça “Pigmalião”, de George Bernard Shaw, a partir da lenda grega de Pigmalião e Galatéa, e que chegou aos palcos da Broadway pelo libreto e canções magníficas da dupla Alan Jay Lerner e Frederick Loewe. Foi o produtor Jack L. Warner, o todo poderoso do estúdio Warner Bros., pessoalmente, que investiu todas as forças na produção deste filme.

 

Se na lenda grega, Pigmalião é um solteirão convicto que esculpe uma estátua e por ela se apaixona, tal a perfeição da obra, no filme, o professor Henry Higgins (o ótimo Rex Harrison) é um professor de fonética, em plena Londres da passagem do século, que pretende transformar uma simplória florista de Covent Garden, Elisa Doolitle (a linda Audrey Hepburn) numa dama da sociedade vitoriana. Ou seja, ele pretendia, mesmo sem querer, com seus esforços, quebrar artificialmente as barreiras daquela sociedade tão estratificada. “My Fair Lady” é um verdadeiro compêndio delicioso de canções inesquecíveis, cenários e figurinos luxuosos. Em canções como “I Could Have Danced All Night” e “Show Me”, He pburn é dublada pela voz eficiente de Marnie Nixon, que não está creditada no filme.

 

 

CRIME – Há filmes recentes como “From Hell” (Do Inferno), dirigido pelos The Hughes Brothers, com Johnny Depp e a bela Heather Graham, numa luxuosa produção que retrata com riqueza de detalhes as ruas de Londres de 1888, quando o maior e mais famoso assassino serial de todos os tempos, Jack o Estripador, matava prostitutas e perseguia os judeus. O filme conta no elenco com Ian Holm (de “Hamlet”, de Kenneth Branagh) e Robbie Coltrane (o gigante da série “Harry Potter”). Enquanto os crimes são cometidos, um a um, a Scotland Yard – a polícia londrina – tenta desvendar o mistério do terrível assassino que picotava suas vítimas. Até hoje Jack é um mistério, mas rende muito filme por aí. “From Hell” é um belo exemplo desse gênero.

 

 

Três Vidas e um Destino

(Ruy Jobim Neto, articulista)

 

 

(artigo publicado no Portal SulMix)

 

 

Um drama de época, uma boa produção, duas lindas e talentosas atrizes e uma  história razoável. No conjunto, “Três Vidas e um Destino” (Head in the Clouds), filme de 2004 com direção de John Duigan, é um belo entretenimento.

 

Gilda Bessé (a linda e oscarizada Charlize Theron) divide, numa certa noite chuvosa (em Cambridge, Inglaterra), um quarto com Guy Maylon (Stuart Townsend) e acaba ficando por lá. A atração do rapaz, um estudante universitário, pela bela garota de cabeça aberta, é instantânea. Gilda, divertida e melindrosa, seduz como um trator.  Nestas primeiras cenas, além de Charlize Theron, quem seduz é a cidade, o fundo maravilhosamente bem escolhido – Cambridge, que é um cenário cinematográfico a céu aberto onde alguns de seus lugares magníficos, como os jardins e os belos prédios de King´s College Chapell, além das pontes e os canais sobre o belíssimo rio Cam, embalam o amor do casal Guy e Gilda.

 

Um período de separação entre os dois vai ser compensado em Paris, onde Guy vai reencontrar a agora fotógrafa Gilda morando com uma refugiada espanhola, Mia (Penelope Cruz). A vida hedonística, o estilo de vida burguês que Paris propicia ao trio de amigos – e amantes – é levada às últimas conseqüências. Gilda continua cada vez mais sedutora; Mia, por sua vez, é uma enfermeira de formação, mas que tem azar com homens, mesmo seduzindo-os, quando posa nua para fotógrafos e escultores; Guy simplesmente está em Paris, apaixonado.

 

Mesmo com os cinedocumentários de época noticiando Guernica (a cidade espanhola invadida e bombardeada em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola), ou as transmissões radiofônicas com discursos de Hitler, os bons dias que o trio de personagens passa na Cidade Luz só vão ser interrompidos mesmo pelos dolorosos momentos da ocupação nazista. Inicia-se, assim, o encontro deles com seu destino inexorável. Mia decide ir para a frente de batalha. Guy a segue, e assim o filme ganha outros contornos.

 

Com uma produção eficiente, belas locações (Paris, Cambridge, Londres), alguma filmagem em cenário “fake”, e munido de muito boa trilha sonora (de Terry Frewer), o filme traz uma Europa que não mais existe, mas que persiste em beleza. Os anos loucos da década de 1920, que foram enterrados definitivamente pela II Guerra Mundial (1939-1945), são mostrados com riqueza de detalhes em “Três Vidas e um Destino”.

 

Um pecado do filme reside nas razões dos personagens de se motivarem tão rapidamente em direção a ações radicais. A guerra, no entanto, é um momento de tomadas de decisões agudas, e os personagens, neste tocante, têm algo de insustentável. Algumas coisas são gratuitas, nesta película. O que pode, talvez, solapar essa impressão, ainda que falsamente, é o cuidado e o preciosismo do que se vê na tela.

 

Para se ter uma idéia do detalhismo de produção, o violinista de jazz Stephane Grapelli aparece no filme, na fase áurea (anos 20-30), numa banda onde toca com vários músicos, sendo três violões e mais um contrabaixo. A fotografia é do excelente Paul Sarossy. O filme, em si, é uma bela produção européia que pode ser assistido por todos com todo o prazer. Difícil mesmo é encontrar alguma produção, exceção feita a “Monster” (que deu o Oscar a Charlize Theron), onde a eficiente atriz consiga aparecer mais linda. Aqui ela interpreta quase uma Betty Boop loirinha.

 

 

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