A História Levada a Cabo

 

(Ruy Jobim Neto, articulista)

 

 

 

O ano é 1972. O presidente, Richard Nixon. O país, obviamente, os Estados Unidos da América. “Todos os Homens do Presidente”, longa-metragem do falecido cineasta Alan J. Pakula é, em todos os sentidos, o melhor relato cinematográfico do caso Watergate, a investigação que levou o presidente Nixon à renúncia. Essa é a nossa indicação desta semana, exatamente a semana em que se abre a CPI dos Correios.

 

                Se aqui ministros poderosos caem, deputados são indiciados e investigados, no filme há a invasão do prédio-sede do Partido Democrata por membros do partido republicano – o mesmo de Nixon -, exatamente o Edifício Watergate, que dá nome ao caso.

 

                O pivô desta história a gente conheceu há duas semanas e meia atrás: Mark Felt, o nonagenário segundo nome do FBI da época, veio à tona. Foi ele que contou tim-tim por tim-tim das ligações perigosas do insólito caso de invasão do prédio com o cerne da Casa Branca, mais precisamente, o Salão Oval.

 

                Os protagonistas? Dois repórteres (hoje célebres) do jornal “The Washington Post”, Carl Bernstein (interpretado por Dustin Hoffman) e Bob Woodward (Robert Redford), os autores do livro homônimo de onde vem o título do filme.

 

                Sob a gerência do também legendário editor do jornal, Ben Bradlee (Jason Robards), o caso foi ganhando força, a cada informação que a intrépida dupla de repórteres ia colecionando, e assim, jogando para o público.

 

                Uma a uma das peças do xadrez ia caindo, sendo todos devidamente indiciados, interrogados. No melhor estilo CPI. O personagem-pivô foi batizado, à época, de “Garganta Profunda”, lembrando o clássico filme pornô estrelado por Linda Lovelace.

 

                Garganta Profunda (Deep Throat) passava informações, dicas, pistas preciosas somente ao repórter Bob Woodward. Ambos se encontravam num determinado estacionamento da capital americana. No filme, o informante é interpretado, na sombra, por Hal Holbrook.

 

                Rodado como thriller político, “Todos os Homens do Presidente” balanceia cenas escuras com outras muito claras. As mais claras se localizam ou na redação do jornal, ou nas ruas de Washington, de dia. As mais escuras trazem à tona exatamente os momentos em que “a panela era destampada”, para usar um termo atual de nossas CPIs.

 

                Com um elenco que ainda traz Martin Balsam, Ned Beatty, Jack Warden e F. Murray Abraham (este muito, mas muito tempo antes de ganhar o seu Oscar por “Amadeus”), “Todos os Homens do Presidente” é um filme sério, mas empolgante. O ideal é prestar bem a atenção no que se diz, juntar as peças do xadrez, seguir as pistas junto com os repórteres. O filme é uma aula de História e de jornalismo, do melhor. Uma história real, da época em que o telex ainda fazia diferença. Ele, que era o avô da internet.

 

Desmundo

(Ruy Jobim Neto, articulista)

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

            Outra indicação de filme brasileiro: “Desmundo”, o mundo revirado de Alain Fresnot, que faz do cinema uma experiência extraordinária.

 

                Com um elenco maravilhoso, encabeçado por Simone Spoladore, Osmar Prado, Caco Ciocler, Beatriz Segall, Cacá Rosset e Berta Zemel, “Desmundo” é uma recriação do Brasil do século XVI. Em 1570, um grupo de garotas vindas de um convento português chega ao Brasil para se casar com portugueses aqui residentes, uma vez que estes estão se mesclando aos nativos ameríndios.

 

                Se Pindorama daquela época estava falando basicamente o tupi, essas meninas (entre elas Oribela, interpretada por Spoladore, que está ótima) vêm trazer novo sangue à colônia. Osmar Prado escolhe Oribela como sua esposa. A vida dura que a moça vai encontrar nos rincões da colônia vai escancarar quando ela conhece um marrano (Ciocler), e por ele se apaixona.

 

                A história do triângulo amoroso em “Desmundo”, filmada em widescreen belíssimo, ganha uma direção de arte primorosa. O filme foi rodado numa cidade cenográfica construída perto de Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo. Os personagens, por sua vez, falam em português arcaico. O filme é dublado em português moderno.

 

                Com roteiro inspirado em romance de Ana Miranda, o diretor Alain Fresnot (de “Ed Mort” e “Lua Cheia”) extrai o máximo de sua equipe e seu elenco. “Desmundo” é, sem dúvida, uma bela obra cinematográfica.

 

Eterna Audrey, eternos filmes

(parte 1) 

(Ruy Jobim Neto, articulista)

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

Audrey Hepburn nasceu princesa. Em todos os filmes de que participou, ela sempre foi a princesa do público, impossível lembrar dela de outro modo. Fosse o personagem que ela interpretasse, a atriz sempre parecia docemente intocável, de uma beleza sofisticada, fazendo dos vestidos e dos taillers desenhados por Hubert de Givenchy uma extensão perfeita de suas formas e de sua graça.

 

Praticamente um cisne. Audrey teve uma infância difícil, sendo testemunha do sofrimento infligido pela II Guerra Mundial, na Europa. A atriz nasceu em Bruxelas, na Bélgica, a 4 de maio de 1929, batizada sob o nome de Audrey Kathleen Ruston, filha de Joseph Victor Anthony Ruston, um banqueiro inglês muito bem sucedido e de Ella Van Heemstra, uma baronesa holandesa, ou seja, tinha mesmo o sangue azul correndo pelas veias.

 

Depois do divórcio dos pais, seguiu com a mãe para Londres, onde foi matriculada numa escola particular para moças. Mais tarde, ao se mudar de volta aos Países Baixos, com sua mãe, continuou a estudar em escolas particulares. Durante as férias em Arnhem, Holanda, o exército de Hitler toma a cidade.

 

Foram os anos duros da ocupação nazista que levaram a já adolescente Audrey a sofrer de depressão e de má nutrição. Chegou a se alimentar de bulbos de tulipa holandesa e mesmo a cozinhar grama dentro de pães, naqueles dias. Seu nome foi trocado para “Ella”, neste período, para esconder o nome britânico “Audrey”, por motivo de segurança – a Alemanha de Hitler era feroz inimiga da Inglaterra. Após a Europa ser libertada, Audrey retorna a Londres para estudar ballet, e daí para a carreira de modelo foi um passo. Tinha 1,70 m de altura.

 

Como modelo, era absolutamente graciosa. Falava fluentemente em inglês, espanhol, francês, holandês, italiano e flamengo. Tinha encontrado o nicho em sua vida - o mundo da moda -, até que os produtores cinematográficos começassem a telefonar. O nome Hepburn foi adicionado mais tarde, por causa de documentos perdidos pelo pai de Audrey, durante a ocupação nazista na Holanda. Os ancestrais de seu pai eram Hepburn, daí seu nome ter mudado para Audrey Kathleen Hepburn-Ruston, ou simplesmente Audrey Hepburn.

 

O ano de 1948 foi a estréia de Audrey no cinema europeu, em “Nederland in 7 lessen”, sendo que três anos depois ela já ganhava um papel com falas, em “Young Wive´s Tale”, no papel de Eve Lester. Mesmo com um papel pequeno, Audrey se muda para a América, para tentar a sorte no cinema. Foi, portanto, em 1953, sob a direção de William Wyler (o diretor de “Ben-Hur”), no papel da Princesa Ann, que a atriz receberia seu Oscar de Melhor Atriz por “A Princesa e o Plebeu” (Roman Holiday), inteiramente filmado nas ruas de Roma e em Cinecittà, tendo a seu lado Gregory Peck e Eddie Albert.

 

A graça de “A Princesa e o Plebeu” reside exatamente na comédia romântica, na fábula tão bem urdida por Wyler que, sem se despojar do seu jeitão acadêmico de narrar, conta a história de como a travessa Princesa Ann se perde em Roma. Claro que o artifício do filme é colocar a princesa sob a tutela do jornalista americano Joe Bradley (Gregory Peck), um correspondente na Itália. Estamos diante de uma perfeita comédia de erros – ela finge ser uma garota perdida em Roma, e Peck não demonstra estar fazendo uma reportagem. O amigo fotógrafo, interpretado por Eddie Albert, é quem faz as provas para o furo de reportagem. Claro que a Princesa é procurada em toda Roma pelas autoridades de seu reino. E obviamente a princesa e o repórter acabam se apaixonando.

 

 

A era vitoriana, fotograma a fotograma

(Ruy Jobim Neto, articulista)

 

 

 

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

 

Houve um momento muito interessante da cultura ocidental que o cinema soube, como nenhuma outra arte, retratar. Durante os anos de Vitória I, rainha da Inglaterra (com longo reinado entre 1837 e 1901), o mundo se curvou à coroa britânica. Embora a moda e a pujança francesa tenha se mantido fortemente até o final da I Guerra Mundial (1914-1918), foi o período encantador e extremamente sofisticado (para não dizer puritano e preconceituoso) da era vitoriana que engendrou obras de arte, histórias fantásticas, romances eternizados, material farto para filmes de todos os gêneros.

 

Vamos por gênero, um de cada, apenas para citar filmes de renome a pontos do leitor internauta ter uma indicação em sua próxima visita às videolocadoras – musical, terror, crime, drama e finalmente o “disaster movie”. Há de tudo um pouco.

 

MUSICAL – Imbatível filme de 1964 dirigido por George Cukor é “My Fair Lady” (foto acima), tido como um dos maiores musicais do cinema de todos os tempos. Nele, está a história vertida da peça “Pigmalião”, de George Bernard Shaw, a partir da lenda grega de Pigmalião e Galatéa, e que chegou aos palcos da Broadway pelo libreto e canções magníficas da dupla Alan Jay Lerner e Frederick Loewe. Foi o produtor Jack L. Warner, o todo poderoso do estúdio Warner Bros., pessoalmente, que investiu todas as forças na produção deste filme.

 

Se na lenda grega, Pigmalião é um solteirão convicto que esculpe uma estátua e por ela se apaixona, tal a perfeição da obra, no filme, o professor Henry Higgins (o ótimo Rex Harrison) é um professor de fonética, em plena Londres da passagem do século, que pretende transformar uma simplória florista de Covent Garden, Elisa Doolitle (a linda Audrey Hepburn) numa dama da sociedade vitoriana. Ou seja, ele pretendia, mesmo sem querer, com seus esforços, quebrar artificialmente as barreiras daquela sociedade tão estratificada. “My Fair Lady” é um verdadeiro compêndio delicioso de canções inesquecíveis, cenários e figurinos luxuosos. Em canções como “I Could Have Danced All Night” e “Show Me”, He pburn é dublada pela voz eficiente de Marnie Nixon, que não está creditada no filme.

 

 

CRIME – Há filmes recentes como “From Hell” (Do Inferno), dirigido pelos The Hughes Brothers, com Johnny Depp e a bela Heather Graham, numa luxuosa produção que retrata com riqueza de detalhes as ruas de Londres de 1888, quando o maior e mais famoso assassino serial de todos os tempos, Jack o Estripador, matava prostitutas e perseguia os judeus. O filme conta no elenco com Ian Holm (de “Hamlet”, de Kenneth Branagh) e Robbie Coltrane (o gigante da série “Harry Potter”). Enquanto os crimes são cometidos, um a um, a Scotland Yard – a polícia londrina – tenta desvendar o mistério do terrível assassino que picotava suas vítimas. Até hoje Jack é um mistério, mas rende muito filme por aí. “From Hell” é um belo exemplo desse gênero.

 

 

Três Vidas e um Destino

(Ruy Jobim Neto, articulista)

 

 

(artigo publicado no Portal SulMix)

 

 

Um drama de época, uma boa produção, duas lindas e talentosas atrizes e uma  história razoável. No conjunto, “Três Vidas e um Destino” (Head in the Clouds), filme de 2004 com direção de John Duigan, é um belo entretenimento.

 

Gilda Bessé (a linda e oscarizada Charlize Theron) divide, numa certa noite chuvosa (em Cambridge, Inglaterra), um quarto com Guy Maylon (Stuart Townsend) e acaba ficando por lá. A atração do rapaz, um estudante universitário, pela bela garota de cabeça aberta, é instantânea. Gilda, divertida e melindrosa, seduz como um trator.  Nestas primeiras cenas, além de Charlize Theron, quem seduz é a cidade, o fundo maravilhosamente bem escolhido – Cambridge, que é um cenário cinematográfico a céu aberto onde alguns de seus lugares magníficos, como os jardins e os belos prédios de King´s College Chapell, além das pontes e os canais sobre o belíssimo rio Cam, embalam o amor do casal Guy e Gilda.

 

Um período de separação entre os dois vai ser compensado em Paris, onde Guy vai reencontrar a agora fotógrafa Gilda morando com uma refugiada espanhola, Mia (Penelope Cruz). A vida hedonística, o estilo de vida burguês que Paris propicia ao trio de amigos – e amantes – é levada às últimas conseqüências. Gilda continua cada vez mais sedutora; Mia, por sua vez, é uma enfermeira de formação, mas que tem azar com homens, mesmo seduzindo-os, quando posa nua para fotógrafos e escultores; Guy simplesmente está em Paris, apaixonado.

 

Mesmo com os cinedocumentários de época noticiando Guernica (a cidade espanhola invadida e bombardeada em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola), ou as transmissões radiofônicas com discursos de Hitler, os bons dias que o trio de personagens passa na Cidade Luz só vão ser interrompidos mesmo pelos dolorosos momentos da ocupação nazista. Inicia-se, assim, o encontro deles com seu destino inexorável. Mia decide ir para a frente de batalha. Guy a segue, e assim o filme ganha outros contornos.

 

Com uma produção eficiente, belas locações (Paris, Cambridge, Londres), alguma filmagem em cenário “fake”, e munido de muito boa trilha sonora (de Terry Frewer), o filme traz uma Europa que não mais existe, mas que persiste em beleza. Os anos loucos da década de 1920, que foram enterrados definitivamente pela II Guerra Mundial (1939-1945), são mostrados com riqueza de detalhes em “Três Vidas e um Destino”.

 

Um pecado do filme reside nas razões dos personagens de se motivarem tão rapidamente em direção a ações radicais. A guerra, no entanto, é um momento de tomadas de decisões agudas, e os personagens, neste tocante, têm algo de insustentável. Algumas coisas são gratuitas, nesta película. O que pode, talvez, solapar essa impressão, ainda que falsamente, é o cuidado e o preciosismo do que se vê na tela.

 

Para se ter uma idéia do detalhismo de produção, o violinista de jazz Stephane Grapelli aparece no filme, na fase áurea (anos 20-30), numa banda onde toca com vários músicos, sendo três violões e mais um contrabaixo. A fotografia é do excelente Paul Sarossy. O filme, em si, é uma bela produção européia que pode ser assistido por todos com todo o prazer. Difícil mesmo é encontrar alguma produção, exceção feita a “Monster” (que deu o Oscar a Charlize Theron), onde a eficiente atriz consiga aparecer mais linda. Aqui ela interpreta quase uma Betty Boop loirinha.

 

 

Um filme elevado à categoria de arte

(Ruy Jobim Neto, articulista)

 

 

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

 

Assistir à violência quadrinhística de Frank Miller em “Sin City – A Cidade do Pecado” nos faz retornar aos bons tempos de Lee Falk, Will Eisner e filmes policiais noir na melhor tradição de John Huston. O filme, dirigido a seis mãos (Robert Rodriguez, Quentin Tarantino e o criador da graphic-novel, Frank Miller), é obra de arte pura. Puro cinema, no melhor estilo chiaroescuro em preto-e-branco, o longa estréia nacionalmente nesta sexta-feira, dia 29 de julho.

 

A transfiguração de quadrinhos em cinema, o clima, a música, o elenco estelar, tudo funciona em “Sin City”, numa inspirada sucessão de takes (ou diríamos...quadrinhos), numa estória complexa e confluente de vários personagens envoltos sempre pela noite – como requer o gênero - , todos povoando o submundo. Prostitutas, policiais corruptos, assassinos sanguinários, dementes, toda uma fauna pertencente ao que há de mais cruel e deprimente, todos estão unidos pelo laço do sangue, da morte. A cidade fictícia de Basin City, a do pecado, está perdida moralmente.

 

Para quem leu os quadrinhos de Frank Miller, o filme é uma adaptação que nada fica a dever.

 

Três histórias paralelas. A primeira delas gira em torno de Marv (Mickey Rourke), um lutador de rua (o chamado “street fighter”) que, motivado pelo ódio, vinga-se daqueles que estiveram por trás da morte de Goldie (a linda Jamie King), a garota loira com quem ele dorme uma única noite. Ela é assassinada enquanto dorme com Marv. A partir daí é um encadeamento de mortes e perseguições. Marv, já vamos avisando, é duro na queda, difícil de matar. E Mickey Rourke, redescoberto, cumpre bem o papel. Ele está ótimo no filme, sob a maquiagem do personagem Marv.

 

Clive Owen (de “Closer”), que interpreta o policial incorruptível Dwight, se vê às voltas com o que há de pior em termos de seus colegas naquilo que se denomina “a Velha Cidade”, permeada por prostitutas armadas até os dentes (e não por isso menos deliciosas), tendo elas como chefe a apaixonada Gail (Rosario Dawson). A garota Alexis Bledel, a Rory do seriado da Warner “Gilmore Girls”, interpreta a suscetível Becky, que sabe como ninguém se defender na terrível cidade.

 

Bruce Willis e a extraordinariamente linda Jessica Alba (a Mulher Invisível de “Quarteto Fantástico) contracenam na terceira história do filme. Ele é Hartigan, o policial que se joga contra um juiz corrupto até os poros, e por extensão, se volta contra todo o sistema penal da cidade. A única coisa que Hartigan defende, como se fosse uma filha sua, é a dançarina de cabaré Nancy Callahan (Jessica Alba). Há toda uma estória entre os dois, perfazendo oito anos de muito desconforto, mas pleno de esperanças.

 

Aliás, o filme tem a atmosfera não só de “Sin City”, de Frank Miller, como de quadrinhos de forma geral. É mais quadrinhos do que qualquer outro filme, tem os enquadramentos bem firmes, os ângulos, os contraplanos, tudo tão bem armado, que sugere ao olho de quem vê a mais pura história-em-quadrinhos, sem tirar nem pôr. O que se vê e ouve na tela é HQ de ponta a ponta. Nada se perde, tudo se explica e se conflui neste longa metragem.

 

As mulheres em “Sin City” são um caso particular. Brittany Murphy faz a nada carente e espertíssima garçonete Shellie, contracenando com Benício Del Toro (divertidíssimo) e Clive Owen. Carla Gugino faz Lucille, a maravilhosa amiga de Marv, uma morena de encher os olhos, e que se vê aprisionada pelo terrível e sanguinário Kevin (Elijah Wood, de “Senhor dos Anéis”). E a linda Devon Aoki, no papel de Miho, é um show, com suas armas mais do que mortíferas.

 

Um diamante que fez o mundo rir

(Ruy Jobim Neto, articulista)

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

 

Blake Edwards ganhou um Oscar pelo conjunto de sua obra cinematográfica na última cerimônia da Academia de Hollywood. Esta coluna pretende lembrar a coleção de filmes que compõem a série “Pantera Cor-de-Rosa”, que o cineasta levou adiante apesar do sucesso do filme original (e homônimo) de 1963. Ao mesmo tempo, vale recordar que há um filme por estrear, um tipo de remake de “The Pink Panther” (não dirigido por Edwards), que está vindo por aí, com Steve Martin, Beyoncé, Kevin Kline e Jean Reno no elenco.

 

O primeiro filme “Pantera”, escrito por Edwards e Maurice Richlin (a partir de idéia de Edwards) tinha um elenco estelar - Peter Sellers, David Niven, Robert Wagner, Capucine (com Sellers na foto), Claudia Cardinale -, e causou sensação na época devido à extrema sofisticação encenada por Edwards. A impressão que se tem é que, mirando a filmografia do cineasta antes e depois de “A Pantera Cor-de-Rosa” (The Pink Panther), nunca ele mesmo conseguiu um efeito tão sofisticado quanto neste filme.

 

A comédia é pastelão. Essa tradição, vinda diretamente do “slapstick” e das comédias físicas de Chaplin, Keaton, O Gordo e o Magro, Os Três Patetas e os antiqüíssimos Keystone Cops (bem do iniciozinho de Hollywood), está corporificada, em “Pantera”, na figura a la Buster Keaton, do imperturbável Inspetor Jacques Clouseau – o personagem criado sob medida para Peter Sellers, e que praticamente o celebrizou.

 

Clouseau é o atrapalhado inspetor policial da Sureté francesa, casado com Simone (Capucine), que por sua vez é amante de Sir Charles Litton (David Niven), suspeito de ser o famoso ladrão de diamantes “The Phantom” (O Fantasma). Nesse meio tempo há outros dois personagens: o sobrinho descolado de Litton, George (Robert Wagner), que vai de Hollywood para Cortina D´Ampezzo, nos alpes italianos, onde se encontram todos, além da Princesa Dala (Cardinale, lindíssima), que por sua vez é dona do pivô do filme – o fabuloso diamante “A Pantera Cor-de-Rosa”.

 

Não se pode falar desta série de longas-metragens sem citar outros dois ingredientes que se tornaram instantaneamente célebres desde o primeiro filme – as aberturas em desenho animado, dirigidas pelo grande Friz Freleng, ao som da música inesquecível do compositor Henry Mancini. Estava armada a lenda.

 

Os autores desta empreitada - o cineasta William Blake McEdwards, ou simplesmente Blake Edwards (nascido em 1922), ator e roteirista de rádio e TV, diretor e criador de dois seriados (os famosos “Peter Gunn” e “Mr. Lucky”), um homem inteligente, praticante de ioga, um cineasta que gostava de rir no set de filmagem quando a cena tinha que ser cômica. Henry Mancini (1924-1994), que era maestro, arranjador e compositor, jazzeiro desde a infância, flautista e pianista, autor de temas notórios dentro do cinema americano, foi também o responsável por boa parte da filmografia de Edwards, e falaremos sobre esta parceria na seqüência desta matéria.

 

Peter Sellers, por sua vez, foi a alma por trás de Clouseau. Tanto foi que o diretor de animação Friz Freleng, o criador das aberturas em desenho animado para os filmes de cinema, também fez à sua imagem o personagem “O Inspetor”, numa série própria de trapalhadas do agente da Sureté. Sellers, o ator, encarnava o personagem à moda de Buster Keaton, como dissemos antes. Imperturbável, o atrapalhado inspetor fazia as piores coisas nos momentos mais impróprios, mantendo uma ridícula aura de seriedade, como se tapasse o sol com a peneira. Melhor impossível.

 

Canini trazido à baila.

Mas falta exatamente Canini

(Ruy Jobim Neto, articulista)

(artigo publicado originalmente no site Bigorna em 16/08/2005)

Nesta última temporada, Lancast Mota produziu dois curtas sobre o grande cartunista gaúcho Renato Canini, o homem por trás da alma mais brasileira de Zé Carioca, e criador imortal do impagável caubói-vez-por-outra-papa-defuntos Kactus Kid, mas tive uma surpresa ao assistir aos dois filmes.
 
Pude ver pela internet, antes mesmo da exibição no Anima Mundi, em São Paulo, o curta Kactus Kid, de 7 minutos, realizado em 35mm, contando como numa cidade do velho oeste chamada "Descansas City", encontramos o coveiro Zeca Funesto. Na luta pela justiça, pela verdade e por alguns clientes, Zeca se transforma no seu alter ego Kactus Kid. Até aí, tudo bem. O filme tem graça, beira a genialidade do próprio Canini, ao se ler as várias historietas do personagem na extinta revista Crás!, da Abril. Contou, segundo os créditos, com roteiro do próprio cartunista transcrito para as telas. Kactus Kid merecia mais, de uma série para TV a um gibi próprio nas bancas, mas isso é querer demais.

No Anima Mundi, a recepção ao filme não foi calorosa, ao contrário das minhas risadas diante do computador, senti que a platéia sequer ofereceu retorno, que ela apenas assistiu ao curta sem se pronunciar. O filme, em si, não tocou. E não foi pela graça de Kactus Kid ou o texto, extraído diretamente dos quadrinhos. Talvez a narração meio pomposa ou a voz em off do personagem, algo sedutora demais para dar um ar cômico a Kactus Kid (e, ouvindo duas vezes, você fica com a sensação de que a platéia poderia mesmo não estar errada), algo não funcionava. Não era o texto, por certo.

A grande decepção veio quando assisti justamente ao outro curta, que eu também estava curioso para ver, também em 35mm, Kactus Canini Kid, uma Graficobioanimada, este sim, o documentário de Lancast Mota sobre o grande cartunista gaúcho.

A começar pelo fato de que há uma falta grave - o filme ressente exatamente de uma entrevista com o próprio Canini (recurso utilizado pelo diretor e pela produção para deixar o curta com apenas 13 minutos), o que poderia ser uma entrevista entremeada ou em off ao longo de várias imagens da carreira do cartunista, como efetivamente mostradas, e no entanto o curta-metragem documentário traz, em seus últimos 7 minutos, o filme anterior, Kactus Kid, todinho. Inteirinho. Não era absolutamente necessário. Desperdiçou tempo que poderia mostrar fotos de estúdio, falas do Canini, depoimentos de outros profissionais sobre ele, e também mostrar mais detalhadamente toda a questão que a Abril enfrentou com a Disney - o grande assunto que falta - por causa do Zé Carioca mais brasileiro de todos os tempos, realizado pela mão laboriosa, pelo desenho limpo e talentoso e pelos brilhantes roteiros do mestre Renato Canini.O recurso foi não bater de frente, não tecer comentário a respeito do assunto, ser apenas comedido e assim, omitir essa informação do público. Foi uma pena, apesar da iniciativa mais do que em tempo de se prestar essa homenagem (ainda que pela metade) ao grande mestre.

Para assistir aos dois curtas: www.portacurtas.com.br

 

Um Mississipi, três irmãs, um belo filme

(Ruy Jobim Neto, articulista)

(artigo publicado originalmente no Portal SulMix)

Quando Beth Henley ganhou o Prêmio Pulitzer por sua peça “Crimes do Coração” (Crimes of the Heart, em 1981), ela era uma das mais jovens e promissoras dramaturgas do Sul dos Estados Unidos. Henley, também autora de “The Miss Firecracker Contest”, outra peça ambientada no mesmo contexto sulista americano, viu esses seus dois textos ganharem as telas de cinemas em todo o mundo, com suas problemáticas e divertidas personagens sendo interpretadas por algumas das principais atrizes da atualidade.

 

Se em “Miss Firecracker”, de 1989, é Holly Hunter quem ganha um concurso de beleza, encarnando Carnelle Scott, uma garota sem muita sorte no amor (ao lado de outras feras como Alfre Woodard, Tim Robbins, Mary Steenburgen e Scott Glenn), no filme de 1986, “Crimes do Coração”, o diretor australiano Bruce Beresford vai deliciar as platéias com as minúcias, as filigranas de interpretação de Jessica Lange, Sissy Spacek e Diane Keaton, todas juntas, no mesmo pacote.

 

O filme, como a peça que lhe deu origem, é essencialmente feminino, e acaba de ser lançado em DVD no Brasil. Narra as desventuras de três irmãs, as Magrath, residentes na pacata e simpática Hazelhurst, no Mississipi. O ponto-de-partida é a prisão de Babe (Sissy Spacek), que movimenta a solteirona Lenny (Diane Keaton) e a irmã do meio, Meg (Jessica Lange), que acaba de chegar de Hollywood.

 

Babe é apelido para o nome Becky, bem como Meg para Margareth e Lenny para Leonora, e é a maneira pela qual as irmãs Magrath se chamam, pelos apelidos. O filme é, por isso, extremamente caseiro e aconchegante.

 

Voltar a Hazelhurst, para Meg, por exemplo, não é nada fácil. A cidade não traz boas lembranças a ela. Foi ali que ela deixou um amor do passado (Sam Shepard, marido de Jessica Lange na vida real) e o avô, que está nas últimas. Lenny é, como já foi dito, uma solteirona, extremamente sensível, e que está à cata de homens via classificados de agências matrimoniais. Hoje em dia ela usaria os chats de paquera na internet.

 

Babe, por sua vez, é a única casada das três, a mais bem sucedida. Tocadora contumaz e desafinada de um saxofone que lhe é mais parceiro que o próprio marido, ela dá um tiro no cônjuge, e assim acaba na prisão, de onde ela é solta. O filme começa aí.

 

O motivo pelo qual Babe dá o tiro no marido e a cena em si são dignos de não serem contados nessa coluna, para que o internauta mesmo possa ver como a coisa acontece. A cena do tiro é um primor de trabalho de Sissy Spacek. Aliás, tanto a peça quanto o filme compartilham o mesmo clima - o humor negro. O fato de a trama se passar no Sul dos Estados Unidos não é, de modo algum, aleatório.

 

Há que se lembrar que o mesmo Sul dos Estados Unidos, que perdeu a Guerra Civil Americana (1861-1865), nunca conseguiu de fato se desvencilhar dessa derrota. Podemos ver no teatro de Tennessee Williams, como o autor mostra personagens herdeiros dessa falência moral e financeira. Só para ficar num exemplo: Blanche DuBois, uma das maiores personagens femininas do teatro moderno, de “Um Bonde Chamado Desejo”, é a própria encarnação dessa falência, das terras perdidas, de um passado glorioso que não volta mais (e isso acontece em outro texto magistral do mesmo Williams – “À Margem da Vida”, que se passa durante a Depressão dos anos 30).

 

 

[ ver mensagens anteriores ]