Moça com o Brinco de Pérolas

 

 

            Outra boa indicação de filme é “Moça com o Brinco de Pérolas(Girl with a Pearl Earring), uma pérola do cinema meio escondida na prateleira da memória recente do público espectador.

 

                O filme, dirigido por Peter Webber em 2003, é uma co-produção anglo-holandesa filmado com maestria pelo diretor de fotografia português Eduardo Serra, um achado assombroso, principalmente quando ele reproduz, na tela do cinema, a luz do mestre holandês pintor, do século XVII, Johannes Vermeer.

 

                “Moça com o Brinco de Pérolas” é puro Vermeer. A história, adaptada do romance homônimo de Tracy Chevalier, é passada na cidade de Delft, a sul de Amsterdam, um tanto próxima de Haia. Delft é a cidade onde Vermeer possuía um atelier, e da qual somente saiu uma única vez na vida, para ir a Haia, para negociar seus quadros.

 

                Vermeer é interpretado pelo inglês Colin Firth (de “Bridget Jones”, “O Paciente Inglês” e “Simplesmente Amor”), tem uma família cristã num mundo recentemente protestante, numa Holanda onde o grande pecado é a falência econômico-financeira.

 

                A belíssima e pobre Griet – a moça do título - é interpretada pela novaiorquina Scarlett Johannson (de ascendência holandesa), e que vai trabalhar como criada na casa do mestre Vermeer, causando, a princípio, o ciúme da mulher do pintor. Vermeer e Griet ficam amigos, há uma tensão sexual no ar. Daí para o quadro ser pintado é uma interessante viagem cinematográfica por quadros maravilhosos do mestre holandês, embalada por uma trilha sonora eficiente de Alexandre Desplat. O filme ganhou Oscars de melhor direção de arte e figurino, em 2004, e todos foram para prateleiras holandesas, com certeza.

Laura, a voz de uma estrela

 

 

            Às vezes as pessoas pedem uma ou outra indicação de um bom filme para assistir num fim-de-semana. Aqui vai a dica de “Laura – A Voz de Uma Estrela” (Little Voice), dirigido por Mark Herman  em  1998 . A graça desse filme reside na figura -  ao mesmo tempo meiga, frágil e patética – da personagem Laura, ou L.V. (a “Little Voice” do título original), interpretada magistralmente pela atriz britânica Jane Horrocks.

 

                A peculiaridade do filme é a própria Horrocks. A atriz, formada pelo Old Vic Theatre, de Londres, tem registro vocal exuberante: ela pode imitar vozes de cantoras, desde Judy Garland a Shirley Bassey, até atrizes como Marilyn Monroe.

 

                O filme deu o Oscar a Michael Caine. O elenco coadjuvante, estelar, é composto de Brenda Blethyn, Ewan McGregor (que todos conheceram como o Obi-Wan Kenobi da recente trilogia “Star Wars”) e Jim Broadbent (de “Moulin Rouge”), além do próprio Caine.

 

                A história se passa numa pequena cidade litorânea inglesa, e gira em torno de L.V. (Horrocks), uma figura fragilizada pela morte do pai querido, que lhe deixou discos antigos das três artistas que ele mais curtia – exatamente Marilyn, Garland e Bassey – e a mãe dela, uma mulher solitária e terrível, que oprime a filha. L.V. (como é chamada pela mãe), que quase não fala mas, quando ouve os discos antigos do pai, solta a voz.

 

                E é quando o empresário artístico, um beberrão e malandro (Caine) descobre a figura, começa todo um movimento para que a pequena L.V. se torne uma estrela. No entanto, um rapaz também solitário, trabalhador da empresa telefônica e treinador de pombos-correio (Ewan McGregor) conhece a garota e por ela se apaixona.

 

Dois detalhes sobre o filme: a personagem Laura, de Horrocks, lembra diretamente a personagem homônima da peça “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams, alguém que vivia solitária, como um pombo engaiolado, no meio de discos velhos que o pai deixou pra ela. O outro detalhe é que o filme foi adaptado de uma peça de teatro de Jim Cartwright, chamada “The Rise and Fall of Little Voice”, escrita exatamente para o talento vocal e cênico da pequena Jane Horrocks. Vale a pena ver de novo.

Uma Londres sem culpa e plena de vida

 

            A propósito dos acontecimentos de 7 de julho (os atentados terroristas) em Londres, vamos pensar leve e indicar uma série de filmes britânicos, com aquele delicioso sotaque, aquela verve própria dos londrinos. Claro, a maioria desses filmes de nossa coluna de hoje são produções da talentosa Working Title. E têm Londres como pano de fundo.

 

                Vamos começar com um bem londrino, mesmo: “Um Lugar Chamado Notting Hill” (Notting Hill), com Hugh Grant e Julia Roberts (foto). Ele faz um livreiro no charmoso bairro de Notting Hill, na “zona oeste” de Londres. Ela interpreta uma atriz americana, de Hollywood, extremamente famosa, lançando um filme na capital britânica. Eles se apaixonam nesta comédia romântica muito divertida, cheia de atropelos, mas com uma simpatia enorme.

 

                Só pra lembrar: Notting Hill é o mesmo bairro que tem a famosa feira de Portobello Road (que aparece no filme em algumas cenas) e o Carnaval de rua, um feriado que acontece sempre na última segunda-feira de agosto, todo ano. O filme tem cenas em Hyde Park, mostra os tetos das casas de subúrbio londrino, tem uma cena de Hugh Grant saindo do famoso Ritz Hotel, enfim, tem Londres para todos os gostos.

 

                Em “O Diário de Bridget Jones”, é a americana Renée Zellweger quem brilha, também ao lado de Hugh Grant. Há cenas que mostram tanto Londres quanto cidades mais próximas, por onde a personagem-repórter-solteirona-de-plantão Bridget Jones perambula. No segundo filme da série, também com o casal Zellweger e Grant (formando sempre o trio com Colin Firth), há mais Londres ainda. Há uma cena composta em CGI (computação gráfica) em que a câmera sai do quarto de Bridget, atravessa a cidade inteirinha até chegar a Notting Hill, onde está Colin Firth.

 

 

                Mas é em “Simplesmente Amor” (Love Actually) que a cidade se mostra como cartão-postal. Do Aeroporto Internacional de Heathrow, onde o filme começa (e termina), a câmera percorre o rio Tâmisa, mostra de longe a Catedral de Saint Paul, dá uma palhinha de Trafalgar Square e Piccadily Circus, à noite, tudo brindado pelas luzes natalinas.

 

                Que filme é esse? É aquele famoso filme em que o nosso Rodrigo Santoro tem personagem com fala e tudo (ufa!), onde ele contracena com Laura Linney, Emma Thompson e Alan Rickman. Além desse pessoal, o espectador é brindado pelas presenças de Hugh Grant (ele, de novo!), Colin Firth (uma vez mais!), Keira Knightley – que rodou “Pride & Prejudice”, de Jane Austen, para a Working Title -, além do “Mr. Bean” Rowan Atkinson, o irlandês Liam Neeson, a portuguesa Lúcia Moniz. Enfim, um elenco simpaticíssimo num filme cheio de música e pleno de sentimentos.

 

                Em “Simplesmente Amor” há várias histórias simultâneas – o Primeiro Ministro se apaixona pela copeira da Downing Street, número 10 (a moradia oficial do poder britânico), um padrasto pretende ajudar o filho de sua falecida esposa a se aproximar da garotinha por quem o menino está apaixonado, um cantor decadente lança uma música natalina nas paradas de sucesso, uma esposa se vê às voltas com um marido não tão fiel assim, um escritor inglês se apaixona por uma portuguesa, e por aí vai.

 

                Saindo um pouco das produções da Working Title, podemos relembrar aqui outros filmes rodado na Inglaterra, e que tem também Londres como pano de fundo. Das aventuras de James Bond (cujas primeiras cenas sempre privilegiam a capital inglesa), a um drama romântico com a linda Gwyneth Paltrow, “De Caso com o Acaso”, cuja cena chave acontece exatamente no “underground”, o metrô londrino.

A nova fantasia de mestre Miyazaki

  

 

 Espantoso. É só o que podemos falar do “master filmmaker” (cineasta mestre, como é chamado pelos distribuidores) Hayao Miyazaki, o autor de “O Castelo Animado”. Se ele exibe o rito de passagem de menina para adolescente em “A Viagem de Chihiro”, através da história de uma garotinha, Chihiro, que se perde dos pais e acaba entrando num mundo fantasioso, é em “O Castelo Animado” (Howl's Moving Castle), de 2004, que ele mostra a passagem seguinte – a da jovem para o mundo adulto. E com que categoria.

 

                Miyazaki se supera a cada filme, e isso por si só mostra a pujança do desenho animado japonês em suas vertentes as mais diversas, diante da animação ocidental. Basta lembrarmos de “Akira”, de Katsuhiro Otomo e de como esse filme causou comoção no mundo do cinema (e mesmo dos quadrinhos). Só um detalhe: vem vindo por aí outro filme do autor de “Akira”, e que é tido como o filme de animação japonês mais caro da História, chama-se “Steamboy”. Miyazaki, por sua vez, é outra estrada.

 

                Tendo suas obras-primas (“Meu Amigo Totoro”, “A Princesa Mononoke” e “A Viagem de Chihiro”, entre outros) ganhado os corações e as mentes de todos aqueles que amam a animação, Miyazaki tem contribuído com a graça do próprio meio, com a fantasia, a poesia e a humanidade presente por trás de cada pequena história dos povos. E aqui, mais uma vez à frente do Studio Ghibli (e com distribuição mundial dos Estúdios Disney), o cineasta põe nas telas o delicado e romântico roteiro de Diana Wynne Jones.

 

                Sophie é a personagem central de “O Castelo Animado”. Ele, o castelo, já aparece desde as primeiras cenas, que por sua vez exibem cenários deslumbrantes, compondo um colossal desenho de produção. A menina trabalha tranquilamente numa tranqüila cidade como chapeleira, uma cuidadosa reformadora de chapeuzinhos delicados, algo tão pueril que nem de longe lembra o que irá lhe acontecer em breve.

 

                Quando ela se defronta com Howl (cuja voz em inglês é feita pelo ator Christian Bale, o atual Batman) e a fantasia começa a aparecer em sua vida – a primeira cena do vôo sobre a cidade é um primor -, a menina se vê perseguida por uma magia, um encantamento de uma bruxa. Sophie então é transformada, num passe de mágica, numa mulher de 90 anos de idade. Ela resolve então se refugiar dentro do misterioso castelo que ronda a cidade.

 

                Há uma guerra no ar, as cidades virarão pó em seguida. O castelo parece o melhor lugar do mundo para ficar. E é neste lugar que a fantasia vai às últimas conseqüências, transformando o longa-metragem numa sucessão interminável de extraordinários cenários (uma direção de arte impecável ) e a música belíssima de Joe Hisaishi. Os personagens que aparecem em seguida são os mais insólitos e adoráveis, ao mesmo tempo – uma bruxa, um cachorro velho, um fogo fátuo (com a voz de Billy Cristal, em inglês), um espantalho, um menino gnomo e finalmente Howl, o dono do castelo.

 

                O filme é um rito de passagem, como dissemos, mas também uma história de amor. A paixão de Sophie e Howl não pode se concretizar: quando é noite, ele é uma enorme ave com rosto de gente (como as harpias gregas, da lenda do Velo de Ouro), Sophie volta à forma normal de garota, e de dia ele é um jovem e belo rapaz por quem ela se apaixonou, mas ela está sob a forma encantada, de mulher de 90 anos. Ou seja, a força do amor combate as maiores adversidades - eis a mensagem por trás desse belo desenho animado.

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