CINEmundi é um blog-coletânea dos artigos de cinema escritos por Ruy Jobim Neto originalmente para o Portal SulMix, de Porto Alegre. Para acessar mais informações sobre o site e o colunista:

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Fotos e Legendas

Audrey Hepburn

John Ford

Natalie Wood, como Debbie em "Rastros de Ódio"/ The Searchers (1956), dir.: John Ford

Fotos e Legendas

Blake Edwards

"A História de Elza" (Born Free)

"Muito Além do Jardim" (na foto: Peter Sellers)

"Moça com o Brinco de Pérolas" (na foto, Colin Firth como Vermeer e Scarlett Johansson como Griet)

"Butch Cassidy e Sundance Kid" (na foto: Paul Newman, Katharine Ross e Robert Redford)

Lucy Liu

Para Ouvir a Música de Gabriel Yared

 

 

Em meados de 2003, Gabriel Yared esteve no Brasil e deu uma palestra regada a piano de cauda e projeções de DVD numa sala da Aliança Francesa, em São Paulo. Na ocasião, também estavam na platéia o crítico de Cinema Rubens Ewald Filho e a cantora Maria Rita, filha de Elis, bem antes da fama. Falou de três filmes para os quais compôs trilha: “O Paciente Inglês” (foto), “O Talentoso Mr. Ripley” e “Betty Blue”, mas já estava anunciando o próximo trabalho com o diretor Anthony Minghella: “Cold Mountain”.

 

            O compositor e pianista veio ao Brasil a propósito da divulgação de seu trabalho musical, de seu site e aproveitou também o evento para contar sua história e como chegou ao Cinema para realizar a trilha de muitos filmes famosos e premiados. Tendo nascido em Beirute, no Líbano, era de se esperar que Gabriel Yared tivesse como uma de suas línguas pátrias o francês, daí o fato de morar atualmente em Paris. Mas Yared também fala em inglês e em português.

 

            Simpático e falante, Yared foi logo contando que sabe falar em português porque morou no Brasil durante um ano e meio, após chegar aqui, no início dos anos 70, para fazer arranjos no Festival Internacional da Canção. Amou a nossa música e por aqui ficou, aprendendo a língua de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e conhecendo todo mundo, de Carlos Lyra a Roberto Menescal, de Elis a Ivan Lins. Ficou praticamente um brasileiro.

 

            Sábia foi sua decisão, aos 20 anos de idade, de decidir parar com o Curso de Direito para ingressar de cabeça no mundo da música, como compositor. Sua formação musical era o jazz e a música erudita. Mesmo sendo autodidata, estudou na Ecole Normale de Musique, em Paris,  com Henri Dutilleux e Maurice Ohana, e foi trabalhar como compositor, produtor e orquestrador para cantores como Charles Aznavour e Mireille Matheiu.

 

            Sua estréia no cinema se deu com Jean-Luc Godard, em 1980, no filme "Sauve Qui Peut la Vie", para o qual compôs a trilha. Em seguida, começou a trabalhar para uma lista numerosa de filmes e grandes diretores como Jean-Jacques Beneix (“Betty Blue”), Robert Altman, Jean-Jacques Annaud, entre outros. Recebeu sua estatueta de Oscar com a trilha de “O Paciente Inglês” e foi indicado para outros dois prêmios da Academia em “O Talentoso Mr. Ripley” e “Cold Mountain”. Coincidentemente, esses três filmes foram dirigidos por Anthony Minghella. Yared é o fundador e diretor de um centro de pesquisa e veiculação de música folclórica em Paris, a Pléiade Academy, que inclusive proporciona suporte a jovens compositores talentosos na produção e promoção de seus trabalhos. O compositor também compôs ballets para as companhias de Carolyn Carlson e Roland Petit.

 

            Duas rápidas histórias: para a confecção de “O Paciente Inglês”, o diretor Anthony Minghella disse a ele que teria oito meses para compor a trilha sonora, e que nesta trilha deveriam conter três coisas – algo de Bach, algo de Haydn e uma específica canção do grupo folclórico húngaro Muzsikás, “Szerelem, Szerelem” (Amor, Amor), que abre o filme, e que tem no vocal a cantora Márta Sebestyén. O tema incidental que Yared compôs para o affair do conde Almasy (Ralph Fiennes) e Katharine (Kristin Scott-Thomas) é extremamente tocante.

 

            Outra história refere-se a “Betty Blue”, de Jean-Jacques Beneix. Há uma cena, no filme, em que o casal (os atores Beatrice Dalle e Jean-Hughes Anglade) tocam piano. Quando convidados à casa de Yared, para conversarem sosbre a música, o compositor verificou que Beatrice nunca havia tocado piano na vida e que Anglade, por sua vez, só tinha aprendido umas notas de Bach. Pois foi exatamente isso que Yared usou no filme, na cena com dois pianos de cauda, em que os atores tocam juntos. O efeito é muito bonito.

"Roma, Judá... Roma"

 

 

“Ben-Hur” é, sem dúvida alguma, um dos maiores filmes de todos os tempos, e nesta categoria, poderíamos incluir sem medo obras como “Lawrence da Arábia”, “A Ponte do Rio Kwai”, “Os Dez Mandamentos”, “El Cid” e, claro, “...E O Vento Levou”. Acontece que “Ben-Hur” está sendo lançado em DVD, essa é a grande novidade. Não se pode esquecer que até a produção de “Titanic”, “Ben-Hur” foi, durante quatro décadas, o maior recordista de Oscars da Academia, em todos os tempos: 11 estatuetas (Melhor Filme, Diretor – para William Wyler -, Ator – para Charlton Heston, Ator Coadjuvante – para Hugh Griffith, entre outros).

 

            A superprodução de William Wyler, rodada em 1959, tem todos os ingredientes para emocionar, e é um filme que deveria voltar às grandes telas dos cinemas, num revival. Tudo é merecido, de tão bom que é, de tão completo e perfeito que é. “Ben-Hur” funciona como um relógio. Baseado no livro homônimo do General Lewis Wallace (1827-1905) – que só escreveu dois livros na vida -, a produção da Metro sob a direção precisa de Wyler começa a ser narrada a partir do ano zero da Era Cristã. “Ben-Hur”, o livro, teve duas versões cinematográficas anteriores. Judá Ben-Hur (Charlton Heston) tem a mesma idade de Cristo. Roma, a grande Roma dos Césares, domina todo o mundo conhecido, só não chegou às raias da Índia, o mesmíssimo limite do império de Alexandre, o Grande. Pois bem, a trama se fixa na Judéia, onde os reis magos, seguidos pela Estrela de Belém, são recebidos na manjedoura onde nasce Jesus. Trinta anos mais tarde, o Império Romano tem problemas com a Judéia. Há cheiro de conspiração no ar, segundo dizem os romanos. Para liderar os militares na região, é mandado Messala (Stephen Boyd), romano criado entre os judeus. Messala é amigo de infância de um dos homens mais ricos de Jerusalém – exatamente Judá Ben-Hur.

 

            As convicções de Messala sobre Roma ficam extremamente firmes depois de viver na grande cidade. “Roma, Judá... Roma” – é a frase que diz ao amigo judeu, mostrando que essas conspirações (na realidade, as histórias sobre um rabi chamado Jesus) deverão ser debeladas pra sempre. E para sempre o poder de Roma reinará. Quando Messala percebe que Ben-Hur não vai se juntar a Roma contra o seu próprio povo, há uma diferença clara entre os até então amigos. Há dois lados opostos muito bem definidos.

 

            Uma triste e insólita situação leva a família de Ben-Hur (a mãe e a irmã) a serem presas nas masmorras de Jerusalém, sob ordem pessoal de Messala, e Judá é levado para as galés, como remador escravizado. Muitas peripécias depois, e Judá Ben-Hur, após salvar a vida de um senador romano (Jack Hawkins), vai para Roma. Torna-se um famoso e celebrado auriga, ou seja, um “piloto” de bigas de corrida. E assim, o novo herói “filho de Roma” volta à Judéia para se vingar de Messala e salvar sua família.

 

            Emoção pura, o filme conta com a direção precisa, milimétrica, classuda, de William Wyler. No filme, a interpretação do elenco é um primor. O roteiro inclusive tem a colaboração (não creditada) de ninguém menos que Gore Vidal. A belíssima atriz palestina Haya Harareet, em seu terceiro filme, embelezava a tela e os sonhos românticos do herói Ben-Hur. É desse filme a famosa cena da corrida de bigas, é o grande momento da trama, quando os valores de Ben-Hur como grande auriga são confrontados aos de Messala. Nos nove giros com as bigas em torno da arena, mostra-se com todo o esplendor a criatividade dos desenhistas de produção e dos marceneiros de Cinecittà, em Roma, onde a cena foi realizada. A fotografia, em widescreen, de Robert Surtees, trabalha em coalizão perfeita, em sintonia fina com a música do grande compositor húngaro Miklós Rosza.  

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